Pela cidade

Paletós encharcados, guarda-chuvas e crianças brincando faziam parte do cenário onde dois personagens desempenhavam o seu papel: a chuva torrencial e eu. A nossa desavença era visual, qualquer estúpido percebia a diferença entre a sua força, imponência, capacidade de incomodar, e a minha fraqueza, aspecto mendicante e capacidade de odiar. Não só aos estúpidos. Paletó e alegria inclusive. Duas coisas que nunca tive possibilidade de desfrutar. E jamais tive vontade, diga-se. Eu estava num beco que me servia de abrigo há muito. Já havia visto muito daquele canto. Talvez nada que valorize minha vida. Com certeza nada que glorifique a sua. E agora esta chuva! Talvez um jogo, um desafio. Tudo bem, ela tem os ases. Eu tenho a alma. E também o espírito. Ela, a arma. E agora? A chuva.

Podemos mudar de assunto? Nunca valorize tanto o seu inimigo. Já falei tanto do meu que talvez você esteja pensando que estou entregue às baratas. Não! Não estou. Convivo com elas numa boa. Desde que não toquem na minha comida. Essas desgraçadas julgam-se importantes demais. Basta você virar para o lado que lá estão elas de olho grande na sua geladeira, na comida do cachorro, no lixo. Você deve saber.

Não estou falando do bem e do mal. Pelo menos agora. O problema é que talvez você não me compreenda quando eu uso a palavra inimigo, falando da chuva. Não é bem assim. Pode ser que existam boas intenções por trás disso tudo. Como me dar um banho. Realmen­te estou um pouco sujo. A palavra inimigo e meus conceitos emitidos podem estar mal empregados mas, digamos assim, realmente não ando a fim de um banho. Só isso. Por isso me desculpo. Não por mim. Pela palavra. Ela merece muito mais elementos dentro do seu conjunto. Assim como estúpidos. Realmente existem palavras privilegiadas no nosso dialeto percussivo. Enquanto outras bem mais inteligíveis aos inteligentes continuam merecendo pouco batuque na aldeia troglodita. Bastardas. Todos somos.

Um momento! Aquele último da gravata cor-de-rosa acaba de jogar uma bituca das grandes fora. Vou lá pegar e já volto. O último cigarro que senti o cheiro foi daquele bêbado que dormiu aqui semana passada. Péssima marca. Péssimo vinho.

Um dia desses, me cansei do meu beco. Chegara aquela hora em que você começa a se coçar, querendo ir embora. Cansei-me de bêbados e mendigos. Todos tinham menos para contar do que eu. E muito o que filar. Resolvi procurar outro lugar para morar, quer dizer, me esconder. Mas onde? Nessa parte da cidade não restava muita coisa. Já havia me hospedado em quase todos os lugares disponíveis. Quase todos me conheciam na área. E juro que não gostavam nem um pouco da minha presença. Ainda mais agora que meu aspecto era repugnante. Desde que minha mulher morreu, perdi toda a preocupação com o meu jeito. Ela foi envenenada. Algum filho da puta daquela fábrica colocou remédio na comida. Salvou-me o fato de naquele dia não conseguir comer por causa de uma ressaca. Às vezes se consegue boas coisas numa lata de lixo. Naquele dia não. Veneno e um péssimo brandy foi o que conseguimos. Pobre dela. Até que nos dávamos bem com os vigias da fábrica, não sei o que houve. Nunca mais botei os pés lá. Aliás, que me lembre, não tenho estado com os pés no chão desde então. Especializei-me em achar e/ou roubar tragos dos incautos.

Decidi tentar o centro da cidade. Longe das chaminés e bairros proletários. Estava começando a ficar exigente. Juntei minhas coisas (eu mesmo) e me coloquei a caminho. Era uma longa jornada. Come­cei a dormir nas galerias do metrô. Esperava até o último trem passar, todas as pessoas saírem, as luzes se apagarem. Eram poucas horas de sono intranqüilo. Tinha que acordar muito cedo. Qualquer bobeira significaria um choque que com certeza me transformaria no primeiro crioulo com cabelos punk. Às vezes eu descolava um cantinho entre os trilhos e a parede. Era pior. O primeiro trem que passava era suficiente para me deixar dias com síndrome de terremoto.

Acabei desistindo do centro. Não acontecia nada à noite por lá. Travestis e navalhas não fazem meu tipo. Talvez a zona sul. Bons restos. Talvez um dedo de Jack Daniels, uma rapa não lambida, enfim, coisa fina. Baixo Leblon, aqui vou eu. No Gávea talvez me sentisse mais à vontade. A maior parte das pessoas de lá são tão sujas quanto eu. E não por necessidade. É, definitivamente, Leblon, não é lá que vão os Globais?

Foi uma dura jornada, vários dias se passaram até eu chegar. Eu tinha medo das pessoas e andava pelas ruas à noite, tentando evitá-las. Durante o dia ficava em qualquer canto dentro do metrô ou em algum beco. Várias vezes fiquei desesperado. Eu estava enojado dos becos e com medo do metrô. E era só isso que me restava. Pensei várias vezes em me matar. Era verão e eu ansiava por chegar ao meu destino. Porém, mais uma vez meu grande inimigo entrou no meu caminho como uma ducha fria. Literalmente. Foram dias e noites de chuva quase ininterrupta. Eu ainda estava na Glória e por lá fiquei, ironicamente, mais de dez dias na merda, refugiado num sobrado abandonado, na companhia de vários mendigos. Alguns com família inteira. Foi horrível. As crianças eram agressivas demais, viviam me importunando, de forma que sono para mim era sinônimo de pesadelo. Sempre acordava aos sobressaltos com algum pentelho filho da puta me sacaneando. Alguns mais calmos de vez em quando me descolavam alguma coisa para comer. Eu não bebia há dias, sentia frio, precisava de um gole ou dois. Eu tremia, não pelo frio é lógico. Bêbado pobre é foda. E as duas coisas andam de mãos dadas pela estrada. Eis uma coisa que eu precisava naquele momento: andar de mãos dadas pela estrada, com alguém. Como não havia ninguém, eu me contentaria com uma garrafa de um brandy qualquer. Resolvi sair dali antes que eu morresse, de tédio, fome, ou assassinado por um daqueles monstros.

Durante minha jornada rumo ao lugar que pensei ser uma espécie de paraíso, acreditei estar passando pelo verdadeiro. Copacabana, o lugar onde uma pessoa como eu sempre desejou viver. Qualquer coisa que passe por nossa cabeça é possível de ser vista nesta terra de ninguém. Putas, pivetes, bêbados, mendigos e gringos pareciam ser a maior parte da população deste bairro. Muito mais perto de um mundo real do que eu jamais havia visto, era um lugar cheio de mazelas, mas em minhas andanças percebi que não me adaptaria tanto quanto imaginei no início. Minhas condições físicas e materiais não eram as melhores, mas restava ainda meu caráter. Vi ali um instantâneo em miniatura de um retrato muito maior que, ao final de tudo, era fundamentalmente a grande culpada por minha vida miserável. Não precisamos de fortuna, luxos e futilidades. Mas ainda sim, se decidirmos que isso é o que nos trará felicidade, não há de ser com o pensamento fixo em fuder o próximo que nos levará a isso. Então conheci miséria muito pior que a minha, a de espírito. E desta, eles não se livrarão. Saí dali com a idéia que não, não era o verdadeiro paraíso, aquilo era o inferno.

Minha saga prosseguiu até Ipanema, onde vi muitas pessoas bonitas andando pelas ruas, carregando sacolas enormes. Julguei eu serem compras de supermercado até que, numa noite procurando por comida pelas ruas, me dei conta que quase não havia supermercados, apenas lojas e mais lojas de roupas e outras bugigangas. Percebi também, à porta de um Zona Sul, que as pessoas saiam com pequenas sacolas, provavelmente seu almoço e jantar do dia seguinte. Talvez nem isso.

Fiquei confuso com aquele lugar, tantas pessoas às ruas durante o dia como que numa passarela, vestidos com sorrisos de saúde e infelicidade, olhando sempre para um ponto acima da cabeça do mais alto de todos que por ali passavam, falando em celulares cada vez menores, falando, falando… provavelmente sem tempo para se escutarem, sem disposição para uma troca de olhares, uma mão sempre ao telefone, a outra com sacolas. De onde vinham estas pessoas? Não eram as mesmas que eu via saindo do supermercado. Seriam estas últimas habitantes de um subterrâneo que eu desconhecia? Não se vestiam iguais, a postura era diferente, tinham o olhar tristonho, pareciam catatônicas como quem perdeu um ente querido repentinamente. Um estado que eu conhecia muito bem. Não era possível ser este o motivo para tantos vincos naqueles rostos, aquela falta de brilho nos olhos.

Depois de algumas semanas observando de longe, comecei a reconhecer aqueles rostos vincados pela manhã nas filas de bancos, do lado de fora, bem antes deles abrirem. Revia muitos destes rostos durante o dia, às vezes de volta ao banco, em outras carregando suas minguadas sacolinhas de plástico branco, recheadas com a amargura de uma vida inteira de trabalho e esforço que, ao final das contas, cabia em dois sacos. Havia algo de muito errado ali, e não eram estas pessoas.

De uma forma que não esperava, depois de tanto tempo vivendo com eu vivo, tudo o que vi por ali me causou tristeza, pena daquela gente. Tanto os diurnos como os noturnos. Resolvi seguir meu caminho rumo ao oeste, ao meu eldorado.

Finalmente cruzei a fronteira do Jardim de Alah e entrei no território em que julguei ser o lugar da minha salvação. Durante os primeiros dias no Leblon, tive a sensação de estar vendo um filme repetido. Não era muito diferente da Ipanema que tinha visto. A maior diferença era uma maior quantidade de restaurantes, o que me fez ganhar alguns quilos em poucos dias. Foi a fase em que comi melhor em toda vida. Ruas inteiras fervilhando de grandes latas de lixo, lindas, laranjas, minha cor preferida. Pude pela primeira vez me dar ao luxo de escolher que tipo de refeição gostaria de fazer. Tanto poderia ser uma alimentação leve à base de saladas variadas como pratos italianos com mais calorias do que meu corpo suportaria. Foi uma festa.

No meio de toda orgia que acontecia no meu estômago maltratado, acabei esquecendo do meu destino final. Baixo Leblon transformou-se numa vaga lembrança de objetivo. Poderia ficar semanas perambulando antes de chegar lá. Para você que não está familiarizado com a cidade ele fica bem no final do bairro, depois disso a montanha, a área residencial que ouvi dizer ser muito bela. Quem sabe dou um passeio por lá quando acumular mais energia. Isso parecia estar perto.

Passaram-se semanas e uma noite acabei indo até o baixo porque me disseram que lá também haviam muitos restaurantes. Bem, foi só o que eu vi de bom. Não justificou a fama. Depois de algumas idas fiquei sabendo que o movimento tinha se transferido para o Baixo Gávea, mas não fiquei tentado a conhecer. Não com toda aquela comida à minha volta. Sentia-me como um rei. Sem trono, herdeiros ou rainha, mas assim mesmo com a vida boa de um.

Após algum tempo desta temporada gastronômica comecei a freqüentar mais os botequins e isso acabou se tornando um problema. Além da qualidade da comida ser pior, nestes lugares não se pensa muito nela. Comecei a beber como nos velhos tempos, agora não mais para enganar o estômago, talvez para enganar a mim mesmo. Sentia-me só, sempre fui rodeado de amigos, vizinhos, gente das ruas que acabavam se tornando conhecidas. Agora estava num lugar onde não conhecia muita gente, tampouco me interessava em me aproximar delas. Era mais um desfile de personagens, eu sentado na platéia observando. Era bem divertido em muitos momentos, porém fui enjoando daquilo tudo, daquela gente. Não eram como eu. E também não estava gostando do eu que ameaça aparecer novamente.

Resolvi então me aventurar pela área residencial do bairro. Lá vi lindas casas, belos jardins e muitos cães ferozes. Depois de um dia apenas, pensei que perderia todos quilinhos guardados só de correr destes filhos da puta. Eram enormes, com nomes complicados que ouvia quando eram chamados pelos empregados. Comiam de uma vez tudo que eu podia em uma semana. De longe eram bonitos, mas muito pouco amistosos. Mesmo os pequenos eram dotados de uma soberba que me enojava. Definitivamente estava em terra inimiga, onde a qualquer minuto poderia ser atacado por um terrorista dotado de poderosas mandíbulas. Era porém um lugar muito agradável, tranqüilo. Pensei que poderia me fixar por ali em algum canto desde que longe de cães e gatos. Perambulei por aquelas ruas durantes horas, dias, sempre me esquivando de animais e seus donos, de seguranças e armas.

Uma noite encontrei uma casa vazia, muito grande. Os donos provavelmente estariam viajando. Ao lado desta casa havia uma outra menor que era usada como depósito de ferramentas e outras quinquilharias. Nenhum animal por perto. Pensei ter encontrado um lugar perfeito para uma estadia, até que as pessoas retornassem. Lá me acomodei por uns dias, encontrei muitas revistas que me distraíram por um tempo. Estava recolhido e satisfeito por isso, sem muitas emoções fortes, pensando em mim, na vida que levei e em como seria dali para frente. Comecei a sentir fome, meu estoque de provisões tinha se acabado. Resolvi entrar na casa à procura de alguma coisa. Chequei todas portas e janelas, até que vi uma tela solta que me permitiu com pouco esforço entrar em um quarto de empregada. Era ao lado da cozinha e havia uma porta mais adiante, que imaginei ser uma dispensa. Quando estava no meio do caminho, satisfeito pelo êxito da empreitada e já imaginando as delícias que lá encontraria, senti uma pancada muito forte. Caído no chão percebi que tinha tomado uma porrada no pescoço, por trás. Estava paralisado. Não conseguia mexer minha cabeça, e com os olhos procurei por alguma pessoa, um gato, qualquer indício de um agressor que tivesse me tocaiado na escuridão. Não havia ninguém, nenhum som. Apesar da noite escura, estava repentinamente tudo muito claro, conseguia ver cada objeto presente naquela cozinha que estivesse no meu campo visual. Cada reflexo, cada contorno. Senti minhas forças me abandonando e tive a certeza de que havia recebido um golpe letal, que estava morrendo. Ali, sozinho, sem possibilidade de alguma ajuda, iria morrer.

Pensei em tudo que pensam os que estão perto da morte. A vida passou em câmera rápida diante de mim, as luzes do cinema acesas. Senti orgulho de mim mesmo por tudo que eu havia sido. Um vagabundo sim, mas com muito caráter. Um sonhador que ousou viver seus sonhos, apesar de ainda não ter conseguido a maioria. Lembrei da minha mulher, dos meus pais, dos muitos amigos e de quanto fui uma pessoa querida. De quantas situações difíceis passei com a cabeça erguida, sem dever explicações a quem quer que fosse. De todas brigas que tive e venci. E como, ainda jovem, estava eu aqui morrendo solitariamente, golpeado por uma ratoeira.

Marcelo Larrosa – 2006